Deus é um produto e a Fé um mercado

Apesar de ser uma abstração, Deus constitui um dos grandes negócios no mundo mágico da mídia. Ninguém viu, falou ou tem qualquer elemento consistente sobre a existência do rapaz, mas, em seu nome, se constroem grandes empreendimentos de indiscutível sucesso, independentes da linha de umbanda do empresário da fé. A religião se estrutura como uma complexa organização, exigindo competência gerencial e, acima de tudo, um eficiente projeto de marketing.

No negócio da fé, existem duas perspectivas. A primeira é a dos pastores eletrônicos, que oferecem as glórias celestiais aqui e agora, enquanto a segunda, da Igreja Católica, oferece as glórias celestiais após o atestado de óbito. Mais eficientes do que psicanalistas, os pastores eletrônicos resolvem os problemas da culpa, quando apontam uma possessão demoníaca para justificar todas as canalhices e até crimes de seus adeptos e, assim, com um bom e barato exorcismo, está tudo resolvido. Já o católico continua com a culpa e somente através do intermediário de Deus, o sacerdote, consegue o perdão e, assim mesmo, com a sensação de incerteza quanto ao perdão Divino.

Estamos limitando o debate apenas em torno das igrejas evangélicas e católica, dado que são as duas que ora disputam o mercado da fé através da mídia. Os pastores eletrônicos, até há poucos anos importados do exterior, acabaram nacionalizados e praticamente excluíram do mercado os estrangeiros. Assim, já não transferimos recursos para outros países para manter o negócio da fé.

Um dos grandes empreendedores no mercado da fé, substituto dos pastores estrangeiros, é o bispo Macedo, que montou uma estratégia a partir do combate ao demônio, personalizado pelos deuses dos cultos afros (os orixás). Em rituais diários, transmitidos pela TV Record, são realizados exorcismos e depoimentos de “libertação” do demônio. A “libertação” se constitui do processo do cidadão deixar atitudes e práticas condenáveis como o vício da bebida, das drogas, do cigarro, da prostituição e até de práticas criminosas, como assalto, violência sexual, tráfico de drogas e delitos de um modo geral.

Até chegar onde chegou, com a aquisição de uma rede de televisão, Macedo foi perseguido e até preso, o que gerou, ao contrário do que se pretendia, maior credibilidade dele junto a seu rebanho, como se fosse uma verdadeira vítima do demônio. Passada a tormenta, ele se mudou para os Estados Unidos e depois voltou suficientemente fortalecido para atacar a Igreja Católica, o que não fazia quando era vítima de perseguição do aparelho do Estado. Não quero discutir os problemas éticos relacionados com a obtenção de recursos, como o dízimo e outras contribuições com diversos títulos. Mas é fato que os pastores eletrônicos transformam muitos de seus adeptos e melhoram a conduta dos mesmos, propiciando inclusive o êxito econômico: na medida em que o cidadão se “entrega a Jesus”, ele deixa de beber, de frequentar prostíbulos e outras atividades do gênero, o que melhora a qualidade de vida de seu grupo familiar.

Já a Igreja Católica, com a Rede Vida, patrocinada pelo Estado e com apoio governamental assumido, não conseguiu marcar presença no mercado da fé e continua sem perspectiva de ampliar sua participação no universo dos fiéis. Falta a clareza, ao contrário do que ocorre com os pastores eletrônicos, em explicitar que Deus quer mudar o mundo para melhorá-lo aqui e agora, como, de certa forma, tendem a fazer os seguidores da teoria da Libertação, em baixa, em virtude do extremo conservadorismo de muitos sacerdotes. A Rede Vida tende a buscar na vida de Cristo ensinamentos, sem oferecer perspectivas para alterar o mundo nem a vida dos fiéis, nem indicar a possibilidade de realização de milagres, aliás algo que os dirigentes católicos não aceitam e até condenam, como é o caso das aparições da Virgem. O que pode mover multidões, por princípio ético, o católico exclui do conjunto dos produtos a serem postos no mercado da fé, o que faz com que perca espaço para os evangélicos.

Os templos católicos estão cada dia mais vazios. Os evangélicos ficam lotados. A transmissão da missa pela TV é uma burocrática e chatíssima mesmice sem qualquer criatividade. As festas religiosas católicas, em raríssimos casos, movem multidões e, mesmo assim, há dúvida quanto ao objeto da participação da maioria, isto é, se por uma questão de fé ou apenas levados pelos aspectos lúdicos da solenidade. Os feriados religiosos são uma hipocrisia e um absurdo, pois perderam o sentido para a quase totalidade da população e são preservados apenas em homenagem ao ócio e a um discutível peso político da Igreja Católica.

A resistência conservadora católica faz com que seus sacerdotes promovam a modernização e aperfeiçoamento do marketing teológico. Isto implicará em prejuízos maiores para Igreja Católica no mercado da fé e a tendência é ela tornar-se cada vez menos influente, como é o caso da sua presença no Poder político. A Igreja Católica deve acabar com seus pruridos, contratando uma agência de propaganda competente, para usar eficientemente os espaços da mídia, como os destinados as missas e a Rede Vida, do contrário vai ter mais tempo na telinha e menos adeptos diante do cansaço determinado pela baixa qualidade de seus programas.

Elcias Lustosa

*Jornalista e escritor

 

Sobre elciaslustosa

Redator político dos jornais de maior circulação do país há cerca de cinquenta anos, trabalhando como jornalista profissional e comentarista de assuntos políticos e econômicos. Desenvolveu também atividade de promoção de eventos com empresas de sua propriedades ao longo da vida.
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